Quem fala e silencia...

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Bem mais do que posso falar ou silenciar... Não basta um olhar... não chega a enxergar. Calo-me para que meu grito alcance a existência do viver em si mesmo, fora do ser que sou, dentro de como estou...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Palidez


Vejo a cor branda de minha carne sem tocar o espelho
A face desbotada pela chuva não vertida, escondida no olhar
Morbidez minha, nua em vestes rasgadas pela dor que me corta nesse dia
Minha inquietação descorada, devora-me o vazio que preenche minha tristeza
Resta-me o escuro e o silêncio que hoje flagelam o que ainda há em mim
Sofro de melancolia profunda e duradoura, alimento da minha hipocondria
Sinto-me cair no abismo do que sinto, sozinha com a tenebrosidade
Salto, jogo-me quando desaparece a vontade de estar de pé
Já não sustento o corpo adormecido e degradado
Desmorono, transbordante água velada que escorre enquanto dói
Dor pungente, de trago cortante e voraz
Não posso gritar
(não há ninguém pra me salvar)


K. J.

sábado, 2 de julho de 2011

A prisioneira dele


Ela está sozinha agora. Se vê entre os lençóis e se pergunta o que faz ali, pronta para dormir, com ele ao seu lado, a roncar, tirando seu sono todas as noites. Ele está ao seu lado, mas apenas na cama. Ela continua sozinha. "Devo estar de pé as cinco da manhã". É tudo o que pensa antes de dormir, mas não é isso que deseja, que necessita, que a deixaria feliz. Está sempre presa, presa sim, por mais que tenha as chaves de todas as portas e portões, ela está presa. É presa dele, e se mantém assim, pois acredita que é assim que deve ser, que nasceu para servir-lhe. Ela não vive como um passarinho na gaiola. Vive como um pássaro solto no meio da floresta, que teve suas asas cortadas, suas penas retiradas, e agora está fadado a caminhar por entre a relva seca e rasteira, observando os outros pássaros planam alto, no céu, radiantes.

Nas poucas oportunidades que tem de sair de seu recinto, ela sorri enquanto seu rosto iluminado olha as vitrines que mostram paisagens de vários lugares do mundo. E ela se imagina ali, pisando naquela areia branquinha da praia, sentada em um banquinho de praça apenas contemplando os galhos das árvores que se mechem com o vento, ou mesmo as folhas secas caídas ao chão. Não! mas não pode nem ao menos sonhar muito, tem que estar em casa antes das onze, pois o almoço dele precisa estar pontualmente ao meio dia na mesa, senão irá decepcioná-lo. Ah, não. Ela não poderia perdoar-se acaso viesse a decepcioná-lo. Por mais que ele nunca perceba que ela dorme apenas quatro horas por noite, ou que só consegue almoçar às cinco da tarde para que esteja tudo em ordem, limpo e cheiroso; mesmo que ele não perceba todo o amor e cuidado com que ela tempera cada prato seu! Dedica seu tempo somente a ele... até por que não importa se já faz mais de três anos que ela não visita as irmãs... não teria nada pra fazer por lá... não importa nada. 

O que importa é que ela está sempre pronta para ouvir-lo reclamar que a comida está ruim, ou que ela não guardou sua roupa da maneira que ele queria, ou mesmo que ela não faz nada direito e ainda fala demais. Aliás, alguém já ouviu a voz dela? Ela sabe que ele nunca agradece e nunca elogia, pelo contrário. "Poxa, ele não gostou mais uma vez". É assim... há muitos anos... do amanhecer ao...   amanhecer...  ela está sempre pronta para dar o tudo de si por ele todos os dias, enquanto ganha em troca... hum... Vejo somente uma existo que ela ganha em troca além da vida de prisioneira? prisioneira dele... sim... dos caprichos dele, que ela se deixou prender e nunca poderá ser resgatada.

Ela acredita ainda ter vida. Eu vejo apenas uma existência, pálida, cinza e sem cor.



Poderia crescer-lhe outras asas?


Kelly Jucelle

Viajo sozinha com o meu coração
Não ando perdida, mas desencontrada
Levo o meu rumo na minha mão
(Cecília Meireles)

Rumo? não sei qual. Pra que serve isso?
Mas sei que um dia chego lá...


Kelly Jucelle